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ONCOLOGIA

Uma conversa sobre neoplasia mamária

Por Mariana Vilela, da redação de Curitiba (PR)

A veterinária Kátia Oliveira destaca que a não castração ou a castração tardia resulta em aumento no número de casos pelo Brasil

A médica-veterinária Kátia Oliveira, formada pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), pós-graduada em clínica médica e cirúrgica pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP) e especializada em oncologia veterinária pela Universidade Anhembi Morumbi (São Paulo/SP) destaca a alta casuística dos casos em regiões onde as fêmeas não são castradas ou são castradas tardiamente. Confira a entrevista a seguir:

Revista Vet&Share: Qual o perfil do paciente que apresentam neoplasia mamária?

Kátia Oliveira: Normalmente são fêmeas não castradas ou castradas tardiamente, depois do terceiro ou quarto cio. Não há predisposição em nenhuma raça específica, qualquer porte, seja de raça pura ou mistura de raças. É muito difícil ter uma estatística racial, porque em cada região prevalece uma determinada raça ou animais sem raça definida. O que podemos ressaltar de mais comum são cadelas não castradas com idade média acima de cinco anos.

V&S Quais os principais exames para realizar o diagnóstico?

KO: Para diagnosticar um tumor de mama o primeiro é ser feito é palpar todas as mamas. Algumas vezes os tumores são bem pequenos, do tamanho de um grão de arroz e já é perceptível ao toque. Depois sido, ao ter a suspeita de tumor de mama, é necessário fazer os exames complementares como o exame de sangue, raio X de tórax e ultrassom de abdômen para a pesquisa de metástase. Além disso, pode-se fazer a citologia dos nódulos para se identificar a origem e grau de malignidade (benignos ou malignos).

V&S Qual o principal desafio na hora de diagnosticar?

KO: É simples porque é palpável e, normalmente, nodular. Há casos que o nódulo são mais espalhados ou mais achatados ou mais superficiais, deixando o clinico em dúvida. Nesses casos, a citologia pode auxiliar a definir a conduta do tratamento.

V&S É recomendável retirar as duas cadeias mamárias ao constatar nódulo em uma?

KO: No consenso de tumores mamários, definiu-se que a mastectomia bilateral num mesmo procedimento é bastante doloroso e que a injuria ao organismo é grande. E ainda se na cadeia contra-lateral não tiver tumor, não vejo porque retirar também.

V&S Como é feito o tratamento?

KO: Depende do estágio. Ao encontrar o tumor a primeira coisa a fazer são os exames prévios e, então, o tratamento cirúrgico. Primeiro estadiar e avaliar cada paciente para então definir o melhor tratamento. Normalmente é cirúrgico, salvo aqueles casos onde já existe metástase a distância ou nos casos de carcinoma inflamatório. De acordo com o consenso de tumores de mama, se os tumores tiverem menos de 3 cm e não tiverem caracteristicas evidentes de malignidade podemos realizar a mastectomia regional, ou seja, quando a lesão é em M1, retira-se M1 e M2, além do linfonodo axilar. Quando a lesão é em M2, retira-se M1, M2 e M3, além do linfonodo axilar. Lesão em M4, retira-se M3, M4 e M5 e o linfonodo inguinal. Lesão em M5, retira-se M4 e M5 e o linfonodo Inguinal. Mas quando a lesão é em M3, deve-se retirar a cadeia mamária inteira. Tumores maiores de 3cm, recomendo a mastectomia total unilateral. Eu sempre indico a mastectomia total unilateral. Eventualmente posso até pensar em fazer a mastectomia parcial, mas isso vai depender do tamanho do tumor. O tamanho tumoral é fator prognóstico. Depois de feita a cirurgia, encaminhamos esse nódulo para o laboratório fazer o histopatológico para poder “dar um nome” para esse tumor. Existem varios tipos de carcinomas mamários, alguns mais e outros menos agressivos, sendo que em alguns casos é preciso do tratamento quimioterápico. O tratamento adjuvante vai depender do tipo tumoral.

V&S O que diferença a variação de casuística de uma região para outra?

KO: Em alguns paises, como na Europa e EUA, a casuistica de tumores de mama é pequena, pois eles castram os animais cedo. Por isso a predisposição para tumor de mama é muito pequena.
Vemos nas estatísticas que pacientes castrados antes do primeiro ou segundo cio as chances de desenvolver neoplasias mamárias é reduzida. Nesses casos é possível separar casuísticas. Outro exemplo, numa mesma cidade, em regiões onde a população é menos favorecida ou que não tenha acesso a informação, o índice de femeas acometidas é maior do que em regiões onde a população é melhor instruida e castram mais cedo.

V&S A alimentação do paciente com câncer de mama precisa ser alterada?

KO: Normalmente mantemos a mesma dieta que o paciente está acostumado. Se de repente tiver metástase como em órgãos internos, fígado, baço, nesses casos trocamos por um alimento com menos carboidrato, uma alimentação cetogênica (dieta de alta gordura, proteína moderada e baixo carboidrato). E durante o tratamento quimioterápico, não acho que seria um bom momento para mudar a alimentação da paciente. É um momento crítico e se mudar pode ser que ela não coma por isso. Então não é preciso mexer e suplementar só quando é necessário, em casos de efeitos colaterais.

V&S Como indicar a castração aos tutores?

KO: É muito importante saber quando indicar. Eu indico por exemplo, as raças pequenas castrar antes do primeiro ou segundo cio. Já para as raças gigantes, não é interessante castrar antes do primeiro cio. É melhor deixar ter um ou dois cios e só então realizar a castração. Sabemos que cães de raças grandes podem desenvolver outros tipos de câncer quando são castrados muito cedo. Muitos estudos ainda estão sendo realizados pra se comprovar essa teoria, por isso, prefiro e recomendo adiar a castração das cadelas de raças grandes.

V&S Que mensagem final gostaria de deixar?

KO: Castrar, castrar e castrar é a mensagem final para evitar os tumores de mama. Além disso, o diagnóstico precoce também é muito importante e não deixar crescer o nódulo, eles podem aumentar muito rápido, evoluir para uma metástase e o prognóstico fica bem ruim. E sempre incentivar os tutores a palpar suas cadelinhas e gatinhas. E só pra frizar, tumores em gatas normalmente são mais agressivos.Não utilizar também o anticoncepcional seja em cadelas ou gatas.

Assista a entrevista em vídeo