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Gastroenterologia

Uma conversa sobre gastroenterite

Por Mariana Vilela, da redação de Curitiba/PR

Apesar de ser comum na rotina clínica, a gastroenterite requer atenção dos médicos-veterinários e tratamento é feito com base na avaliação individual de cada paciente

“Antes de pensar em uma inflamação idiopática na mucosa intestinal, é preciso ter certeza de que ela não foi causada por um parasita, como uma verminose, giardíase, entre outros. O paciente com vômito e diarreia nem sempre tem alteração no trato gastrointestinal, podendo ser manifestações clínicas de outras doenças sistêmicas”.

Anna Carolina Rodrigues Santos Zimmermann, médica-veterinária, especializada em gastroenterologia

Comum na rotina da clínica veterinária, a gastroenterite, inflamação no aparelho digestivo, pode ser causada por vírus, bactérias, parasitas, resultado de intoxicação, de ordem obstrutiva ou alimentar. Os principais sintomas são vômito e diarreia, podendo conter sangue, além de sinais decorrentes da inflamação como febre, apatia, perda de peso. Para o diagnóstico, o médico-veterinário deve avaliar o histórico do animal, sinais clínicos, exames adicionais como radiografias, análises sanguíneas e em alguns casos, endoscopia e/ou cirurgia exploratória.


A médica-veterinária, Anna Carolina Rodrigues Santos Zimmermann, graduada pelo Instituto Federal Catarinense – Campus Araquari/SC, especializada em Gastroenterologia de Cães e Gatos pela ANCLIVEPA-SP, que realiza serviço volante especializado em gastroenterologia em Joinville e Vale do Itajaí (SC), explica que as gastroenterites são comumente vistas na rotina clínica, porém, requer atenção dos médicos-veterinários. “O tratamento é individual para cada paciente, os exames complementares são importantes, incluindo os mais básicos como coproparasitológico. Eu sempre falo que antes de pensar em uma inflamação idiopática na mucosa intestinal, tenho que ter certeza de que ela não foi causada por um parasita, como uma verminose, giardíase, entre outros. O paciente com vômito e diarreia nem sempre tem alteração no trato gastrointestinal, podendo ser manifestações clínicas de outras doenças sistêmicas”, frisa. Confira entrevista completa a seguir:

Revista Vet&Share: Quais são as causas de uma gastroenterite e quais as mais comuns em cães e as mais comuns em felinos?

Anna Zimmermann: Nos cães, a maioria dos casos de gastroenterites agudas que atendemos está relacionada com imprudência alimentar e até mesmo parasitária. Já em gatos a rotina é mais relacionada com gastroenterites de caráter crônico, com histórico de crises esporádicas. Mas também pode estar ligada à parasitas e alimentação inadequada.


V&S: Quais os sinais clínicos principais? Qual a diferença entre a gastroenterite crônica e a aguda?

AZ: As manifestações clínicas principais nos pacientes com gastroenterite são vômito, diarreia e perda de apetite. Ao se tratar de um processo crônico, o paciente apresenta essas alterações por mais de três semanas. E, também, pode acontecer do paciente ter crises, uma vez por semana, uma vez por mês, a cada três meses e ter caráter crônico.

V&S: Quais as causas mais comuns nos pacientes jovens? E nos mais velhos?

AZ: Em jovens as causas tendem a ser parasitária, ingestão de corpos estranhos e até mesmo intolerância alimentares. Já em pacientes adultos, costumo encontrar inflamações mais importantes e, até mesmo, com indícios crônicos em exames de imagem e são pacientes que, muitas vezes, demoram para estabilizar. A doença inflamatória intestinal nesses casos se torna mais comum e, inclusive, só fechamos o diagnóstico dessa patologia através de biópsia intestinal.

V&S: Para cada causa há um tratamento diferente? Em que casos é prescrito o antibiótico?

AZ: Sim, quando se trata de diarreias hoje classificamos de acordo com a resposta clínica do paciente, ou seja, se respondeu ao tratamento com antibiótico, corticoide, troca de dieta, fibras, entre outros. Em relação ao uso de antibiótico, existe hoje uma alternativa que é entrar com antibiótico apenas em últimos casos nas diarreias crônicas, porém, depende da clínica do paciente, exames complementares, parâmetros físicos e evolução. O que vale ressaltar é que se você tratou uma diarreia com antibiótico por uma semana, paciente teve recidiva, talvez o antibiótico não era o tratamento ideal. Com o uso indiscriminado de antibióticos nas gastroenterites agudas, a disbiose secundária a estas pode ocorrer e, no Brasil, não temos um exame específico para classificar essa alteração na microbiota intestinal, como um índice de disbiose, por exemplo, e o diagnóstico acaba sendo por exclusão das outras causas o que é uma preocupação para nós, gastroenterologistas.

V&S: O que um veterinário deve levar em conta ao atender um paciente com vômito e diarreia?

AZ: A anamnese é o principal recurso para o diagnóstico. Entender quais as manifestações clínicas, quando surgiram, se teve algum gatilho ou não. Existem pacientes que apresentam crises de doenças crônicas quando ocorre algo diferente em casa, viagens, mudança alimentar, novos petiscos e até mesmo algo que tenha comido sem permissão.
O médico-veterinário precisa entender se o vômito e a diarreia podem ser de causas extra gastrointestinais, como doenças infecciosas, Nefropatia, crises de dor, doenças endócrinas, entre outras.

V&S: Quais os exames que o veterinário deve solicitar?

AZ: Para vômitos e diarreias o ideal é que o paciente faça alguns exames básicos como hemograma, avaliação da atividade de enzimas renais e hepáticas, coproparasitológico, testes rápidos para giárdia, FIV, FeLV e ultrassonografia abdominal. Em casos crônicos, podem ser necessários exames de triagem para doenças endócrinas, sorologia para doenças do carrapato (dependendo na incidência na região), exame de urina e, até mesmo, biópsia gástrica e/ou intestinal.

V&S: Por que é difícil diagnosticar rapidamente as causas de uma gastroenterite?

AZ: Quando são crises agudas o tratamento sintomático resolve rapidamente e acabamos não investigando as causas primárias. É comum que o paciente seja atendido em crise de doenças crônicas, mas é estabilizado e acaba ficando assintomático por mais um período.