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SUPLEMENTOS

Suplementação na saúde e na doença

Por Wandréa de Souza Mendes

Os nutracêuticos são alimentos ou parte de alimentos que apresentam benefícios à saúde. Podem abranger nutrientes isolados, suplementos nutricionais e, até alimentos funcionais. Sua ação varia desde o suprimento de nutrientes essenciais, podendo também incluir a prevenção e/ou tratamento de doenças. O termo nutracêutico não é reconhecido pelo órgão regulador de produtos para uso em animais no Brasil, portanto, é comum que nutracêuticos e suplementos alimentares sejam referidos como sinônimos. O objetivo dessa revisão é apresentar alguns suplementos nutricionais com potencial para auxiliar na manutenção da saúde ou como terapia adjuvante no tratamento de doenças que afetam cães e gatos, principalmente pela modulação de respostas biológicas, incluindo a inflamação e defesa imunológica.

Os ácidos graxos poli-insaturados (AGPI) talvez sejam os nutracêuticos mais suplementados atualmente, especialmente os das famílias ômega-3 (ω3) e ômega-6 (ω6). De um modo geral, atribui-se aos AGPI ω3 a capacidade de modular o sistema imunológico e produzir eicosanoides com menor potencial inflamatório, enquanto os AGPI ω6 são conhecidos como geradores de eicosanoides pró-inflamatórios. Porém, isso não é regra, há exceções na família ω6 que precisam ser conhecidas e aplicadas. Ainda não há um consenso sobre a relação ideal entre ω6 e ω3, mas na prática tenta-se manter uma ingestão entre 5:1 a 10:1.

Os AGPI ω3 de maior interesse são os ácidos alfa linolênico (18:3n-3, ALA), eicosapentaenoico (20:5n-3, EPA) e docosahexaenoico (22:6n-3, DHA). Embora o ALA, presente por exemplo na linhaça, nozes e castanhas, tenha funções importantes como a manutenção da fluidez das membranas celulares, ele não é capaz de modular a inflamação. Nesse contexto, os AGPIs ω3 de maior interesse são o EPA e o DHA. EPA compete com o ácido araquidônico (20:4n-6, AA), AGPI da família ω6, por vias enzimáticas envolvidas na síntese dos eicosanoides, e induzem a liberação de prostanoides e leucotrienos das séries 3 e 5, com menor potencial inflamatório. A partir do DHA são produzidas principalmente resolvinas, maresinas e neuroprostanos, que participam da fase de resolução da inflamação. A literatura atribui vários benefícios ao EPA e DHA, que se encontram resumidos no Quadro 1. Cães e gatos apresentam baixa habilidade de converter ALA em EPA e DHA, devido a carência da enzima Δ6 dessaturase.

Quadro 1 – Benefícios atribuídos aos AGPI ω3: ácido eicosapentaenoico (EPA) e ácido docosahexaenoico (DHA)

 

Esses AGPIs estão presentes em algas marinhas, especialmente aquelas que se desenvolvem sob baixas temperaturas, no zooplâncton e nos peixes. Na prática os óleos de peixes são as fontes mais comumente disponíveis para a suplementação de EPA e DHA. Algumas doses de EPA e DHA são citadas por alguns autores (Quadro 2), mas ainda não se tem um consenso. É possível desenvolver nutracêuticos com maior teor de EPA ou mais DHA, conforme o objetivo da suplementação.

Quadro 2 – Doses sugeridas de EPA e DHA para cães e gatos

Os AGPI da família ω6 de interesse nutracêutico são os ácidos linoleico (18:2n-6, LA), encontrado em abundância em óleos vegetais, como os de cártamo, girassol, soja, milho e canola; o gama linolênico (18:3n-6, GLA) e dihomo-ɣ- linolênico (20:3n-6, DGLA). O LA relaciona-se à integridade da barreira epidérmica, porém é pró-inflamatório. Logo sua suplementação deve ser cautelosa e restrita aos casos dermatológicos, sendo contraindicado em doenças inflamatórias crônicas. Por outro lado, o GLA estimula a produção de ceramidas, constituinte da barreira epidérmica, e ao contrário de outros AGPI ω6, GLA e DGLA proporcionam a liberação de prostaglandinas da série 1 e tromboxanos da série 3, com características anti-inflamatórias. O GLA, quando suplementado, converte-se rapidamente em DGLA, que é muito pouco e lentamente convertido em AA. Portanto o GLA constitui melhor opção que o LA para tratamentos dermatológicos. O que limita seu uso é o custo, pois é obtido principalmente a partir dos óleos de borragem e prímula, culturas não produzidas no Brasil.

Nos últimos tempos as betaglucanas ganharam notoriedade na nutrição humana e animal. As betaglucanas constituem um grupo heterogêneo de polissacarídeos, polímeros de glicose unidos por ligações glicosídicas β, reconhecidos há décadas como ‘modificadores de respostas biológicas’. Normalmente são isolados de parede celular de leveduras, cogumelos, grãos de cereais e algas marinhas. Em cereais, como cevada e aveia, as betaglucanas da parede do endosperma apresentam, além de β (1-3), ligações β (1-4). A atividade das β-1,3 glucanas sobre o sistema imune depende da conformação e presença de grupos hidrofílicos na estrutura. Já as β-1,4 glucanas não apresentam ação imunológica. Leveduras, como a Saccharomyces cerevisiae, constituem fonte importante de β 1,3/1,6 glucanas, a forma de glucana mais estudada e reconhecida pela maior eficiência no estímulo do sistema imunológico. A configuração β-1,6 tem atividade muito limitada quando sozinha.

Os efeitos biológicos das glucanas alcançam um amplo espectro de reações biológicas. Estimulam eficientemente a imunidade inata e adaptativa, pelo aumento da capacidade fagocítica, da atividade do sistema complemento, da ação de radicais livres e da produção de imunoglobulinas. Além de incrementar a proteção contra infecções por vírus, bactérias, fungos e protozoários, as β-1,3/1,6 glucanas aumentam a eficácia dos antibióticos em infecções resistentes, apresentam ação anti-inflamatória, cicatrizante e antitumoral, reduzem os efeitos colaterais da quimioterapia e radioterapia, modulam a microbiota (ação prebiótica), auxiliam no controle da colesterolemia, glicemia e agem como adjuvante na potencialização de respostas às vacinas. A literatura reporta segurança e eficácia entre 10 a 65 mg/kg/dia para β 1,3/1,6 glucanas purificadas da levedura Saccharomyces cerevisiae, a partir de 14 dias de consumo contínuo.

O uso de prebióticos, probióticos ou a combinação destes (simbióticos) representa uma estratégia interessante para a correção da disbiose, caracterizada pela alteração na composição da microbiota intestinal que culmina com o predomínio das bactérias prejudiciais sobre as bactérias benéficas. A disbiose pode ser primária (menos comum) ou secundária ao estresse, alterações imunológicas, dieta, patógenos intestinais, insuficiência pancreática exócrina, obesidade, fatores ambientais ou induzida por medicamentos, principalmente os antibióticos. A disbiose interfere negativamente e profundamente na regulação de todo o trato gastrointestinal (TGI) e na saúde sistêmica do hospedeiro. No TGI está associada com redução da capacidade digestiva e absortiva, inflamação, ocorrência de diarreias agudas ou enteropatias crônicas, alterações hepáticas e pancreáticas e comprometimento do sistema imune, do qual fazem parte a própria microbiota, a barreira intestinal e o tecido linfoide associado ao intestino. Doenças extra intestinais como obesidade, dermatite atópica, alterações no sistema nervoso central, doença renal crônica e insuficiência cardíaca congestiva já foram correlacionadas à disbiose intestinal.

Probióticos são micro-organismos vivos que, quando administrados em quantidades adequadas, promovem benefício à saúde ao hospedeiro. Os produtos probióticos podem conter uma ou mais cepas microbianas, sendo desejável múltiplas cepas. Microrganismos utilizados como suplementos alimentares são principalmente bactérias, na maioria das vezes Gram-positivas, pertencentes aos seguintes gênereos: Bacillus, Enterococcus, Lactobacillus, Bifidobacterium, Pediococcus, Streptococcus. Algumas linhagens de fungos também são consideradas e utilizadas como probióticos, como as leveduras Saccharomyces cerevisiae. Como vantagem em relação às cepas bacterianas, leveduras são resistentes à ação de antibióticos e podem ser utilizadas durante terapias antimicrobianas sem perda da função. A suplementação de probióticos repõe os microrganismos benéficos, reduzidos pela disbiose, e estes suprimem o crescimento de microrganismos patogênicos através de atividade antimicrobiana, competição por nutrientes e por sítios de adesão. Os probióticos também produzem ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), como acetato, propionato e butirato, que reduzem o pH intestinal tornando o ambiente inapropriado para microrganismos patogênicos, são fonte de energia para colonócitos, estimulam a proliferação celular do epitélio (integridade da barreira intestinal), participam do metabolismo da liberação de hormônios, estimulam a absorção de sódio e água pela mucosa e podem melhorar a absorção de nutrientes. Muitos benefícios dos probióticos para a saúde tem sido mais recentemente relacionada a sua capacidade de produção de posbióticos, metabólitos que exercem atividades biogênicas como o estímulo do sistema imune e a modulação da inflamação, propiciando benefícios ao trato gastrointestinal e a tecidos extra intestinais, tais como sistema nervoso central e periférico, pele, rins, fígado, coração.

Já os prebióticos são em sua grande parte componentes alimentares não digeríveis (fibras), seletivamente fermentados por bactérias, como bifidobactérias e os lactobacilos, que são estimulados a se desenvolver, alterando a microbiota para uma composição mais saudável. Dentre os prebióticos mais conhecidos destacam-se inulina, fruto-oligossacarídeos (FOS), manano-oligossacarídeos (MOS) e betaglucanos. A inulina e os FOS pertencem a uma classe de carboidratos denominados frutanos, são quimicamente similares e apresentam as mesmas propriedades nutricionais. Ambos possuem subunidades de frutose em sua composição. Diferem em relação as fontes, sendo a inulina proveniente da raiz de chicória e para o FOS são citadas a ocorrência natural em vegetais e síntese pelo fungo Aspergillus nigricans na presença de sacarose. FOS são altamente fermentáveis por bifidobactérias e lactobacilos, levando a produção de AGCC. MOS e betaglucanos são obtidos a partir das paredes celulares de levedura, Saccharomyces cerevisiae. O mecanismo de ação desses prebióticos é diferenciado de outros prebióticos. Sua capacidade fermentativa é inferior em relação ao FOS, porém eles têm a capacidade de estimular diretamente o sistema imune. Adicionalmente o MOS, cujo principal componente é a manose, limita o desenvolvimento de bactérias patogênicas por exclusão competitiva, impedindo que elas se fixem à mucosa intestinal.
Em um simbiótico há probiótico (s) e prebiótico (s) combinados. A interação entre o probiótico e o prebiótico in vivo pode ser favorecida por uma adaptação do probiótico ao substrato prebiótico anterior ao consumo. O principal objetivo dessa combinação é melhorar a implantação e sobrevida dos micro-organismos probióticos no trato gatrointestinal. Os probióticos influenciam beneficamente o equilíbrio intestinal e os prebióticos nutrem as bactérias probióticas. Portanto é uma combinação apropriada que resulta em uma vantagem competitiva para o probiótico.

Varallo, Thomé e Teshima (2008) propuseram que os efeitos clínicos de uma única cepa de probiótico seriam menores que múltiplas cepas de probióticos, que por sua vez seriam inferiores aos efeitos obtidos de um simbiótico (probiótico + prebiótico) e de uma mistura simbiótica de múltiplos probióticos e prebióticos. Além da variedade de cepas, a concentração, em unidades formadoras de colônia (UFC), e a ingestão diária também são importantes fatores para garantir eficácia e efeito contínuo.

Para finalizar, acho importante discutir que mais estudos clínicos são necessários para a compreensão dos mecanismos de ação, doses adequadas e tempo ideal para suplementação na saúde (para prevenção de doenças) e em doenças específicas. Mas apesar das lacunas, o conhecimento atual nos permite reconhecer que nutracêuticos constituem ferramentas seguras para a modulação de respostas biológicas, principalmente o controle da inflamação e o fortalecimento das defesas imunológicas, fatores essenciais para aumentar a longevidade e qualidade de vida de cães e gatos.

Wandréa de Souza Mendes
Médica-veterinária, doutora em nutrição animal, gerente técnica veterinária Avert Saúde Animal

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