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CAPA

Saúde única e febre maculosa brasileira

Reportagem Mariana Vilela, de Curitiba (PR)

Em razão do desconhecimento sobre a doença e da dificuldade no diagnóstico clínico em áreas não endêmicas, é provável que a infecção nos cães ocorra em maior proporção do que em seres humanos. Além disso, os sinais inespecíficos frequentemente conduzem a um diagnostico diferente

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Causada por bactérias do gênero Rickettsia, a febre maculosa brasileira (FMB) é uma zoonose emergente transmitida pela picada de carrapatos, pulgas, piolhos e ácaros infectados, sendo os cães considerados sentinelas. Segundo a Vigilância de Zoonoses e Doenças de Transmissão Vetorial do Ministério da Saúde (MS), houve aumento de registro de casos de febre maculosa em seres humanos, esperado para o período do ano.

De acordo com a doutora em Biociência Animal, Maria Fernanda Melo Monteiro, graduada em Ciências Biológicas pela Faculdade Frassinetti do Recife (FAFIRE), quando falamos de febre maculosa, o ambiente urbano, idade do paciente, presença de vetores competentes e proximidade com os cães podem influenciar nas taxas de infecção.

Apesar de não haver estatísticas sobre a quantidade de cães infectados com a febre maculosa, de acordo com os estudos, acredita-se que devido à maior exposição dos cães a carrapatos vetores potenciais e à susceptibilidade à infecção por R. rickettsii, é possível que ocorra maior incidência da doença em cães do que em seres humanos.

Além disso, a subnotificação da doença em cães pode ocorrer devido ao conhecimento limitado da epidemiologia da doença, aliado à ocorrência de sinais clínicos inespecíficos e à falta de inclusão no diagnóstico diferencial com outras doenças febris agudas por médicos-veterinários.
O professor titular de Doenças Parasitarias dos Animais Domésticos – Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), doutor Leucio Câmara Alves destaca que inicialmente os resultados sorológicos têm demostrado a circulação de R. rickettsii em áreas onde A. aureolatum ocorre, principal vetor da FMB. “Sendo assim, é provável que a infecção nos cães ocorra em maior proporção do que em seres humanos. É possível que haja subnotificação de casos em razão do desconhecimento sobre a doença e da dificuldade no diagnóstico clínico em áreas não endêmicas. Por outro lado, os sinais inespecíficos frequentemente conduzem a um diagnostico diferente como, por exemplo, erliquiose, cujo tratamento e realizado pelo mesmo antibiótico”.

Dr Leucio explica que “saúde única” caracteriza uma visão unificada entre a saúde dos animais dos seres humanos e do meio ambiente, reconhecendo que o homem faz parte de um ecossistema, fazendo com que médicos-veterinário e outros profissionais da saúde atuem conjuntamente. “Com certeza a saúde única deve estar presente na vida do profissional de medicina veterinária”, ressalta e continua: “Falta do conhecimento sobre a febre maculosa, aliada a sintomatologia e profilaxia ainda é um entrave para o diagnóstico precoce da doença. A percepção da população sobre febre maculosa ainda é muito baixa, o que impede o controle da infecção. Trabalhos de educação continuada entre os profissionais de saúde única deve ser prioritário nas áreas endêmicas”.

História
A febre maculosa é uma doença infecciosa causada pela Rickettsia rickettsii e Dr Leucio conta que foi primeiramente diagnosticada em 1899, na região montanhosa do noroeste dos Estados Unidos da América, onde foi denominada febre maculosa das montanhas rochosas (FMMR) (MAXEY, 1899; HARDEN, 1990). Sua transmissão ocorre após a picada de carrapatos infectados que precisa ficar pelo menos quatro horas fixado na pele das pessoas. Duas entidades têm sido reconhecidas, a FMMR e a Febre Maculosa Brasileira (FMB).

No início do século XX, Howard Taylor Ricketts estabeleceu o papel do Dermacentor andersoni na transmissão da febre maculosa e realizou o primeiro isolamento da bactéria que foi nomeada Rickettsia em sua homenagem (RICKETTS, 1909). Os principais vetores da FMMR na América do Norte são Dermacentor variabilis e D andersoni.

Vetores
A Dra Maria Fernanda conta que no Brasil, R. rickettsii é transmitida ao homem por ixodideos das espécies Amblyomma sculptum, Amblyomma aureolatum e Amblyomma ovale (MORAES- FILHO, 2017). Além destes, outra espécie de carrapato pode ser transmissora da R. rickettsii, como Rhipicephalus sanguineus sensu lato (s.l.) (CUNHA et al., 2009; PACHECO et al., 2011).

Atualmente existem três perfis epidemiológicos associados à FMB, o primeiro ocorre na presença da R. rickettsii, A. sculptum e capivaras, sendo este o ciclo epidemiológico ocorrendo na região Sul e Sudeste do país (SZABÓ et al., 2013; NASSER et al., 2015; SOUZA et al., 2015; BRITES-NETO et al., 2015).

O segundo com R. rickettsii, A. aureolatum e cães domésticos que propiciam a ocorrência da FMB na região metropolitana de São Paulo, em áreas urbanas que se dividem com fragmentos de Mata Atlântica (PINTER et al., 2004; OGRZEWALSKA et al., 2011).

O terceiro envolvendo Rickettsia sp. cepa Mata Atlântica, A. ovale e o cão doméstico em áreas de Mata Atlântica das regiões Sul, Sudeste e Nordeste (SZABÓ et al., 2013; BARBIERI et al., 2014; VOIZZONI et al., 2016).

O Carrapato Marrom do Cão, Rhipicephalus sanguineus serve como um dos principais vetores da FMMR. No Brasil o R. sanguineus já foi encontrado infectado com R. rickettsii em várias regiões brasileira (Cunha et al., 2009; Gehrke et al., 2009; Moraes-Filho et al., 2009; Pacheco et al., 2011; Ogrzewalska et al., 2012).

R. sanguineus é um vetor competente de R. rickettsii e em oposição a A. cajennense e A. aureolatum, R. rickettsii não tem um efeito letal na população de R. sanguineus (Piranda et al., 2011).

Pesquisas sobre a doença
Quando falamos em FMB, Dr Leucio destaca que há biodiversidade de vetores competentes. Apesar da detecção de espécimes de A. longirostre e Ixodes sp. infectado com Rickettsia spp, eles parecem não participar dos ciclos epidemiológicos da FMMR, mas pode sinalizar a circulação rickettsial em uma determinada região.

Por outro lado, vários artigos têm chamado atenção que o reconhecimento precoce pode ser crucial para um tratamento efetivo e redução das taxas de morbidade e mortalidade.

O papel do cão no ciclo da doença, sinais clínicos e tratamento
Os caninos podem ter participação no ciclo de transmissão da FMB, por estarem inseridos no domicílio humano e por serem susceptíveis à doença, sendo considerados também como animais sentinelas para FMB (PADDOCK et al., 2002; LABRUNA et al., 2009).

De acordo com Dr Leucio, cães infectados apresentam sinais clínicos inespecíficos, e incluem febre, perda de apetite, perda de peso, anorexia e letargia. Sinais digestivos e respiratórios como diarreia, vômito, e tosse com secreção nasal respectivamente, tem sido observado, além de sinais neurológicos como ataxia e hipersensibilidade ao toque. Do ponto de vista laboratorial a trombocitopenia e anemia são importantes achados.
O tratamento é eficiente nos cães infectados. Doxiciclina é o antibiótico de escolha por 7-21 dias dependendo da dose. Tetraciclina, enrofloxacina e cloramfenicol também são efetivos.

Maria Fernanda Melo Monteiro
Doutora Maria Fernanda Melo Monteiro, graduada em Ciências Biológicas pela Faculdade Frassinetti do Recife (FAFIRE).
Leucio Câmara Alves
Doutor Leucio Câmara Alves, professor titular de Doenças Parasitarias dos Animais Domésticos – Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE)