Vet&Share

NUTRIÇÃO CLÍNICA

Principais nutrientes para cães e gatos cardiopatas

Por Caio Nogueira Duarte, Vinícius Henrique Lacerda de Andrade e Flavio Lopes da Silva

As cardiopatias estão entre as doenças mais prevalentes em cães e gatos. Os avanços científicos obtidos nos últimos anos permitiram uma melhor aplicação dos conceitos de nutrição em pacientes com doenças do sistema cardiovascular, nas quais o manejo dietético pode influenciar tanto na sobrevida desses animais quanto na origem de determinadas doenças (FREEMAN, 1998; GOMES; DUARTE, 2020).

Proteína, gordura e energia
Como consequência da doença cardíaca, temos, por exemplo, a caquexia, caracterizada pela perda de massa muscular, anorexia e aumento da produção de citocinas inflamatórias. Essa síndrome pode ocorrer em animais com doença cardíaca que se encontram em estágio de insuficiência cardíaca congestiva (ICC) (FREEMAN, 1998).
Entre os efeitos deletérios da caquexia, destacam-se a redução da sobrevida e qualidade de vida do paciente. Portanto, um manejo nutricional adequado nos estágios iniciais da síndrome pode interferir positivamente na expectativa e qualidade de vida do paciente (MALLERY et al., 1999; GOMES; DUARTE, 2020).

Para isso, preconiza-se o fornecimento de quantidades adequadas de proteína, gordura e calorias. Utilizar altos níveis de gordura é uma forma de aumentar a densidade energética e palatabilidade do alimento. Já a necessidade energética deve ser avaliada individualmente para manutenção dos escores de condição corporal (ECC) e massa muscular (EMM), a fim de prevenir ou tratar a caquexia, mas também evitar o desenvolvimento de outras doenças, como a obesidade (GOMES; DUARTE, 2020).

Em relação ao consumo de proteínas, sabe-se que a restrição proteica pode ser deletéria, por predispor o paciente ao desenvolvimento de caquexia, devendo ser sempre ponderada na presença de outras doenças que tenham tal indicação (GOMES; DUARTE, 2020). Cães e gatos com insuficiência cardíaca e caquexia necessitam de níveis suficientes de proteína na dieta para manter ECC e EMM adequados. (ROZENTRYT et al., 2010).

Ácidos graxos poli-insaturados ômega 3
Os ácidos graxos ômega 3 são moléculas essenciais que fornecem energia para as células, compõem a membrana citoplasmática e servem de precursores de mediadores inflamatórios, como prostaglandinas, leucotrienos e tromboxanos. Neste cenário, sabe-se que os precursores gerados a partir dos ácidos eicosapentaenoico (EPA) e docosaexaenoico (DHA), da família ômega 3, possuem menor potencial inflamatório. Considerando o papel da inflamação no desenvolvimento da caquexia cardíaca, descrito anteriormente, recomenda-se altos níveis de EPA e DHA para cães com ICC (FREEMAN, 2010; GOMES; DUARTE, 2020).

Taurina
Presente em grande quantidade no miocárdio, a taurina é um aminoácido essencial para a espécie felina. A ingestão de quantidade inadequada desse nutriente é um dos fatores de predisposição à cardiomiopatia dilatada (CMD), tanto em gatos quanto em algumas raças de cães. Após essa constatação, na década de 80 (PION et al., 1987), houve, progressivamente, uma suplementação desse aminoácido nos alimentos comerciais de felinos. Atualmente, os casos de CMD secundária à deficiência de taurina estão sendo estudadas, principalmente, em animais que se alimentam com dietas de boutique (produzidas por pequenas empresas de pet food), caseiras, vegetarianas, veganas, grain free ou com ingredientes exóticos (FREEMAN et al., 2018; McCAULEY et al., 2020).

L-carnitina
O músculo cardíaco é um dos principais órgãos de armazenamento de L-carnitina. Esse aminoácido desempenha função de transporte de ácidos graxos de cadeia longa nas células do miocárdio, a fim de promover uma adequada oxidação e produção de energia no órgão. Embora possa acontecer uma deficiência plasmática de carnitina em cães, a CMD secundária à deficiência de L-carnitina se desenvolve apenas quando há deficiência miocárdica, que pode ocorrer mesmo com níveis plasmáticos normais de carnitina.

Arginina
A arginina é um aminoácido precursor para a produção de óxido nítrico, que promove relaxamento da musculatura vascular e, consequentemente, vasodilatação. Em humanos, já foram observados casos de pacientes com hipertensão arterial pulmonar (HAP) que, quando suplementados com arginina, apresentaram efeito vasodilatador. Em cães com HAP, tal efeito ainda não foi demonstrado (GOMES; DUARTE, 2020).
Sódio

A ingestão adequada de sódio também faz parte do manejo nutricional de cães e gatos cardiopatas, e é considerada uma das principais formas de minimizar a retenção de líquido em animais com ICC. Cães saudáveis ou que apresentam cardiopatia sem sintomas são capazes de regular os níveis séricos de sódio e potássio frente a dietas com altos ou baixos teores desses minerais (GOMES; DUARTE, 2020).

Por outro lado, sabe-se que cães em ICC apresentam menor capacidade de manter esse equilíbrio nutricional, podendo se beneficiar de uma dieta com níveis moderados de sódio. O ajuste desse mineral na dieta deve ser feito de forma bastante criteriosa, principalmente em cães cardiopatas que ainda não desenvolveram ICC. Uma restrição pode ativar o sistema renina-angiotensina-aldosterona, um dos mecanismos neuroendócrinos responsáveis pela progressão para ICC, promovendo um efeito contrário ao desejado.

Caio Nogueira Duarte
Professor doutor coordenador do curso de pós-graduação em Cardiologia Veterinária da Faculdade Método de São Paulo (FAMESP)

Vinícius Henrique Lacerda de Andrade
Médico-veterinário pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP)

Flavio Lopes da Silva
Médico-veterinário, MSc. do Departamento de Capacitação Técnico-Científica da PremieRpet®

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FREEMAN, L. M. Interventional Nutrition for Cardiac Disease. Clinical Techniques in Small Animal Practice, v.13, n.4, p.232-237, 1998.

FREEMAN, L. M. Beneficial effects of omega-3 fatty acids in cardiovascular disease. Journal of Small Animal Practice, v.51, p. 462–470, 2010.

FREEMAN, L. M.; STERN, J. A.; FRIES, R.; ADIN, D. B.; RUSH, J. E. Diet-associated dilated cardiomyopathy in dogs: what do we know? JAVMA, v.253, n.11, p.1390-1394, 2018.

GOMES, M. O. S.; DUARTE, C. N. Considerações nutricionais nas cardiopatias de cães e gatos. In: LARSSON, M. H. M. A. Tratado de Cardiologia de Cães e Gatos. Primeira edição. São Paulo: Interbook; p.441-454, 2020.

MALLERY, K. F.; FREEMAN, L. M.; HARPSTER, N. K.; RUSH, J. E. Factors contributing to the euthanasia decision in dogs with congestive heart failure. J Am Vet Med Assoc, v.214, p.1201-1204, 1999.

McCAULEY, S. R.; CLARK, S. D.; QUEST, B. W.; STREETER, R. M.; OXFORD, E. M. Review of canine dilated cardiomyopathy in the wake of diet-associated concerns. Journal of Animal Science, v.98, n. 6, p.1–20, 2020.

NASCIUTTI, P. R.; MORAES, A. T; SANTOS, T. K.; GONÇALVES QUEIROZ, K. K.; COSTA, A. P. A.; AMARAL, A. R.; et al. Protective effects of omega-3 fatty acids in dogs with myxomatous mitral valve disease stages B2 and C. PLoS ONE v.16, n.7, 2021.

PION, P. D.; KITTLESON, M. D.; ROGERS, Q. R.; et al. Myocardial failure in cats associated with low plasma taurine: a reversible cardiomyopathy. Science, 237:764–768, 1987.

ROZENTRYT, P.; HAEHLING, S. V.; LAINSCAK, M.; NOWAK, J. U.; ZADEH, K. K.; POLONSKI, L.; ANKER, S. D. The effects of a high-caloric protein-rich oral nutritional supplement in patients with chronic heart failure and cachexia on quality of life, body composition, and inflammation markers: a randomized, double-blind pilot study. J Cachexia Sarcopenia Muscle, v.1, p.35-42, 2010.

SMITH, C. E.; FREEMAN, L. M.; RUSH, J. E.; CUNNINGHAM, S. M.; BIOURGE, V. Omega-3 fatty acids in Boxer dogs with arrhythmogenic right ventricular cardiomiopathy. J Vet Inter Med, v.21, p.265-273, 2007.