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O que há de novo no protocolo de vacinação de cães e gatos

Por Mariana Vilela, da redação de Curitiba/PR

Entrevista com a médica-veterinária, doutora Flavya Mendes de Almeida, professora na Universidade Federal Fluminense, que fala sobre as atualizações nos esquemas vacinais de animais de companhia

Em novembro de 2016 publicamos uma reportagem com o título “Os novos desafios do protocolo de vacinação”, que abordou como tema principal o guia desenvolvido pelo Comitê Latino Americano de Vacinologia de Animais de Companhia – COLAVAC ligado a Federação Iberoamericana de Associações Veterinárias de Animais de Companhia – FIAVAC, chamado “Estratégias para vacinação de animais de companhia: cães e gatos”.

O documento foi apresentado durante o 41º Congresso WSAVA 2016 (World Small Animal Veterinary Association), realizado em Cartagena na Colômbia. Na ocasião o presidente da FIAVAC, Pedro Luis Ferrer, destacou que o documento desenvolvido pelo COLAVAC são orientações de vacinação de extrema importância que servem especificamente para cada região da América Latina.

Desde então, o documento não foi atualizado, porém as informações contidas nele continuam válidas e atuais. O que há de novo são algumas atualizações feitas em 2020, no que diz respeito a protocolo vacinal de cães e gatos, publicadas em duas guidelines, sendo uma feita pelo grupo de vacina da World Small Animal Veterinary Association (WSAVA) e outra pelo American Animal Hospital Association (AAHA) em conjunto com a American Association of Feline Practitioners (AAFP).

A médica-veterinária Flavya Mendes de Almeida, professora doutora de Clínica Médica de Cães e Gatos da Faculdade de Veterinária – Universidade Federal Fluminense (UFF, Rio de Janeiro/RJ), que também participou do desenvolvimento do documento elaborado pela COLAVAC, conta sobre as principais mudanças no esquema vacinal de cães e gatos apresentados nessas guidelines de 2020. Confira a seguir a entrevista:

Revista Vet&Share:
Quais são as principais mudanças apresentadas nessas guidelines?

Flavya Mendes de Almeida: Nesses guidelines de 2020 da WSAVA e AAHA/AAFP temos algumas novidades. Uma delas é com relação a primovacinação de cães e gatos. Há a recomendação de que, dependendo do risco de exposição, seja feita mais uma dose de reforço das vacinas consideradas essenciais para os cães ainda filhotes, com idades entre 18 e 20 semanas de idade. Essa dose extra é recomendada para os cães em áreas que há maior risco de exposição a esses agentes patogênicos.
Em relação aos felinos, também há atualização nesse sentido. Atualmente há a recomendação de uma dose de reforço das vacinas essenciais quando os filhotes completam seis meses de idade.

V&S Quais os prejuízos em vacinar sem necessidade?

Flavya: Essa pergunta é muito interessante, porque na verdade não devemos vacinar sem indicação! É preciso conhecer a prevalência e a circulação dos agentes infecciosos, avaliar o grau de exposição dos animais a esses agentes e a partir daí estabelecer o protocolo vacinal mais adequado a cada situação.

Além disso, não podemos esquecer que as vacinas são produtos biológicos e que eventualmente podem ocasionar reações adversas. Há também o risco de administração de excesso de antígenos, formação de complexos imune (antígeno-anticorpo) que podem causar danos aos animais ou levar à diminuição da intensidade da resposta contra os antígenos que realmente importam! Podemos considerar também que ao vacinar um animal sem necessidade estaríamos levando os tutores a pagar por um produto desnecessário.

V&S Você concorda que um bom clínico veterinário deve vacinar o maior número de cães possível e vacinar cada gato com o menor número de antígenos possível?

Flavya: Um dos objetivos da vacinação é exatamente proteger o maior número possível de animais, independente se é cão ou gato. Muitas doses em um mesmo animal não é algo tão interessante quanto vacinar o maior número de animais possível. A Covid-19 mostra de forma inequívoca que a vacinação do maior número de suscetíveis possível é fundamental para o controle dos riscos de infecção.

Como médicos-veterinários precisamos sempre pensar qual vacina aquele animal precisa naquele determinado momento. Por isso não é possível “engessar” esses protocolos. Eu sempre preconizo a utilização das vacinas essenciais e obrigatórias aos cães e gatos e aquelas vacinas consideradas complementares exigirão uma avaliação caso a caso.
Quanto aos felinos e ao excesso de antígenos, a preocupação é ainda maior. Essa apreensão se deve a possibilidade de um gato “geneticamente programado” desenvolver o sarcoma no local de injeção felina (FISS), que é uma reação adversa, já bastante conhecida. Sabemos que a vacina por si só não é a causa desse tipo sarcoma, pois são vários fatores envolvidos. Na formação desse tumor um fator a ser considerado é quantidade maior de antígenos presentes em uma única vacina.

Contudo, jamais podemos deixar de vacinar um gato com uma vacina essencial, pois o risco desse animal adoecer de algo que poderia ter sido evitado pela vacina deve ser levado em consideração em relação a possibilidade de formação do sarcoma. Devemos sempre avaliar os “riscos x benefícios” quando pensamos em vacinação, principalmente de gatos.

V&S Vacinar cães idosos todo ano, animais que foram vacinados durante anos, há necessidade?

Flavya: Há evidência científica de que filhotes de cães vacinados com as vacinas essenciais apresentam imunidade protetora por muitos anos, mesmo sem reforços regulares quando o animal já é adulto. A resposta imune primária de um cão mais velho costuma ser menos efetiva do que quando o cão é mais jovem, porém ela ocorre. Assim, um cão idoso não necessita de uma revacinação mais frequente do que um animal adulto mais jovem. Um cão idoso pode ser mantido com segurança dentro do protocolo de revacinação com as vacinas essenciais a cada três anos, por exemplo.

V&S Quais as novidades no mercado nacional no que diz respeito a vacinas?

Flavya: O que temos de novidade é o lançamento da vacina oral contra Bordetella bronchiseptica, dose única, com recomendação de reforço anual. Essa vacina é considerada uma vacina complementar. Já temos essa vacina monovalente ou associada a outros agentes (parainfluenza e adenovírus canino do tipo 2), administradas por via parenteral ou intranasal, só que agora temos a disposição essa vacina monovalente por via oral. A vantagem da administração oral quando comparada à via intranasal reside principalmente na facilidade de aplicação e na aceitação por parte dos pacientes.

V&S Que mensagem gostaria de deixar para os veterinários brasileiros sobre o protocolo de vacinação em cães e gatos?

Flavya: É preciso ter em mente que precisamos sempre nos manter atualizados, acessar o material científico disponível sobre o assunto, participar dos congressos e eventos veterinários, assim como também pensar que as estratégias de vacinação são variáveis e sujeitas a adaptações ao longo do tempo. Devemos acreditar que educação continuada é fundamental para que pratiquemos medicina veterinária de qualidade. Precisamos acompanhar as pesquisas e evidências científicas e saber que doenças circulam na região onde trabalhamos, o grau de exposição e risco aos quais os animais estão expostos. E, a partir daí, elaborar os protocolos vacinais mais adequados e adaptados aos nossos pacientes de forma a exercer uma medicina veterinária preventiva, ética e de qualidade.

''Há a recomendação de que, dependendo do risco de exposição, seja feita mais uma dose de reforço das vacinas consideradas essenciais para os cães ainda filhotes''

Flavya Mendes de Almeida, médica-veterinária, professora doutora de Clínica Médica de Cães e Gatos da Faculdade de Veterinária – Universidade Federal Fluminense (UFF, Rio de Janeiro/RJ)

2020 Guideline WSAVA

Recomendações sobre a vacinação para médicos veterinários de pequenos animais da América Latina: um relatório do Grupo de Diretrizes de Vacinação da WSAVA

Além das atualizações, o guideline 2020 do grupo de pesquisa de vacina da WSAVA, traz também uma lista de 70 respostas de perguntas frequentes para ajudar na rotina clínica. Confira a seguir duas questões e respostas presentes no guia:

A vacina contra giardíase é amplamente usada em toda a América Latina. Porque o VGG não recomenda essa vacina?

O VGG não recomenda esta vacina por não haver evidências científicas suficientes para justificar seu uso. A evidência de que a vacina pode prevenir a disseminação ou a infecção é fraca. Um grande estudo de campo com 6000 cães demonstrou que os filhotes vacinados tinham maior probabilidade de apresentar diarreia do que os não vacinados, e não houve diferença entre esses grupos com relação à detecção de cistos ou antígenos (Lund et al. 2010) [EC1]. A doença em cães não causa risco de morte, é raramente zoonótica, é de baixa prevalência e responde à terapia; por estes motivos, a vacina não é recomendada para cães. Não se sabe se a vacina oferece proteção cruzada contra cepas de Giardia a não ser aquelas usadas nos estudos de desafio. Dados brasileiros não mostram diferença na identificação de Giardia por PCR das fezes de cães normais e cães com diarreia (Gizzi et al. 2014) [EC1]. Deve-se notar que a vacina foi retirada de todos os mercados globalmente com exceção dos da América Latina.

O VGG recomenda o uso de uma vacina contra Leishmaniose?

O VGG classifica as vacinas contra Leishmania infantum como não essenciais, o que significa que elas devem ser restritas aos cães em risco em áreas endêmicas para a infecção. As vacinas contra Leishmania estão disponíveis somente no Brasil, Argentina e Paraguai. Essas vacinas devem ser consideradas como uma ferramenta na prevenção da leishmaniose visceral canina. Evitar o contato de cães suscetíveis com flebotomíneos (por exemplo, mantendo-os dentro de casa durante os horários de maior atividade dos flebotomíneos) e o uso de medidas preventivas contra flebotomíneos (p. ex., coleiras inseticidas) é muito mais importante que a vacinação (Sevá et al. 2016, Lopes et al. 2018) [EC1]. As vacinas não conferem imunidade estéril; elas podem prevenir ou diminuir a intensidade dos sinais clínicos nos animais afetados, mas nem sempre previnem a infecção e, portanto, mesmo os cães vacinados podem atuar como reservatório de Leishmania (Regina-Silva et al. 2016) [EC1]. Os cães devem ser testados antes da vacinação, pois a vacinação de um cão que já está infectado não traz nenhum benefício na prevenção da infecção e é um desperdício de vacina.

Confira a guideline na íntegra disponível em:
https://wsava.org/wp-content/uploads/2020/08/Recommendations-on-vaccination-for-Latin-American-small-animal-practitioners-Portuguese.pdf

Figura 1 Locais de vacinação: locais de injeção recomendados nos membros distais e na cauda.

2020 AAHA/AAFP Feline Vaccination Guidelines

Na guideline 2020 AAHA/AAFP Feline Vaccination Guidelines é possível encontrar as atualizações, entre elas: Update on feline injection-site

Sarcomas – Atualização sobre o local de injeção felina sarcomas.

Confira a guideline na íntegra disponível em:

https://www.aaha.org/globalassets/02-guidelines/feline-vaccination-guidlines/resource-center/2020-aahaa-afp-feline-vaccination-guidelines.pdf