Vet&Share

Nutrição

O papel da nutrição em casos de gastroenterite

Por Mariana Vilela, da redação de Curitiba/PR

Confira entrevista com a médica-veterinária, Melissa Guillen, especializada em endoscopia e nutrição

“Nos casos de gastroenterites, a dieta deve oferecer alimentos de baixo resíduo intestinal, alta digestibilidade
e ser palatável.”

Melissa Guillen, nutricionista e médica-veterinária autônoma, especializada em endoscopia/ nutrição

Revista Vet&Share: Quais as necessidades nutricionais de pacientes com gastroenterites?

Melissa Guillen: A nutrição tem um papel fundamental no organismo de qualquer espécie. Uma alimentação de boa qualidade e nutricionalmente balanceada fornece nutrientes para o funcionamento adequado do metabolismo. A nutrição humana e veterinária está em franca evolução, os resultados e pesquisas nessa área são muito promissores.

Em especial a nutrição está diretamente ligada com o intestino. Alimentos de baixa qualidade, corantes, conservantes, aditivos, enfim, tudo que a vida “moderna” nos oferece, interfere diretamente na mucosa intestinal. Esse é um dos motivos pelo qual nos últimos anos os atendimentos de gastroenterologia vêm aumentando.

Na minha rotina recebo animais com histórico de vômito e diarreia crônicos. Em 90% dos casos tenho resultado positivo fazendo apenas o balanceamento de uma dieta adequada para o momento. A escolha certa do alimento também faz a diferença para o reestabelecimento da mucosa intestinal.

Nos casos de gastroenterites, a dieta deve oferecer alimentos de baixo resíduo intestinal, alta digestibilidade e ser palatável. As refeições devem ser fornecidas em pequenos volumes várias vezes ao dia. Em alguns casos o jejum de poucas horas poderá ser instituído.

Dietas com alimento extrusado específico ou comida caseira balanceados fornecem os nutrientes necessários para a melhora das vilosidades intestinais.

As necessidades nutricionais de macronutrientes (carboidratos, proteínas e gorduras), além dos micronutrientes e vitaminas variam de acordo com a espécie, idade, fase reprodutiva, doença e atividade física.

V&S: Que tipo de alimento o veterinário deve prescrever?

MG: A escolha da dieta seja ela extrusada ou comida caseira deverá ser avaliada de forma individual. Nos casos de doença do trato digestivo, dietas hipoalergênicas, dietas com baixa quantidade de gordura (low fat) e dietas com teor de fibra adequado estão indicadas. O ideal é que a dieta seja escolhida de acordo com o diagnóstico.

V&S: Quando o animal não quer se alimentar, quais as alternativas palatáveis?

MG: A inapetência é um sinal/sintoma que pode ser causado por diversos motivos. Alterações metabólicas como doença renal, hepática, pancreática, neurológica, hormonal, intestinal; podem diminuir o apetite.
Problemas odontológicos (cáries, periodontites, tártaro etc.) também podem alterar o apetite. Outra causa é quando o animal experimenta a comida de verdade!

Não podemos negar que comida é mais gostosa que alimento extrusado! Nesses casos a alimentação caseira balanceada, por ser mais palatável, é indicada.

V&S: E como e quando prescrever probióticos e suplementos?

MG: A manutenção da microbiota intestinal equilibrada é fundamental para a saúde do homem e dos animais. Os probióticos, são microrganismos e quando estão em equilíbrio, ajudam a manter a microbiota saudável, contribuindo para a integridade digestiva e imunidade.

Os suplementos são essenciais principalmente quando o animal faz alimentação caseira e nas injúrias agudas e/ou crônicas, pois provocam demandas maiores de determinados micronutrientes. A suplementação nesses casos é fundamental.

Endoscopia

V&S: E a endoscopia, em que situações o veterinário deve solicitar?

MG: A endoscopia está indicada em diversas situações que envolvem alterações no trato digestivo, respiratório (alto e baixo), genito-urinário e orelhas (otites crônicas).

V&S: Como a endoscopia pode ajudar no diagnóstico?

MG: A endoscopia é um procedimento minimamente invasivo e sua importância como auxílio no diagnóstico e tratamento de diversas alterações digestivas, respiratórias, otológicas e genito-urinárias deve ser cada vez mais difundida. Permite a visualização direta da mucosa, coleta de material para análise histopatológica, retirada de corpos estranhos, retirada de pólipos e massas, dilatação de estenoses, colocação de sonda de alimentação (GEP – gastrostomia endoscópica percutânea), lavado traqueo-bronco-alveolar, avaliação e acompanhamento de lesões e tumores.

Após o procedimento endoscópico o animal vai para casa, normalmente sem restrições, não há necessidade de internação, cuidados com ferida cirúrgica e dor pós-operatória.

A endoscopia está presente em minha vida desde a minha formação (2001). Éramos poucos endoscopistas e durante esse tempo, trabalhamos muito na divulgação da importância da endoscopia como auxílio diagnóstico e tratamento.

Os cursos eram todos fora do país. Hoje em 2021, temos a primeira turma especializada em endoscopia no Brasil, Anclivepa – SP e tive a satisfação e o prazer de participar desse momento como membro da banca examinadora.

V&S: Quais os casos em que a endoscopia é indicada?

MG: Relacionadas ao trato digestivo (Endoscopia Alta e Endoscopia Baixa ou Colonoscopia) podemos citar disfagia, odinofagia, refluxo, regurgitação, estenoses, anomalia do anel vascular, vômito, diarreia de intestino delgado e grosso, perda de peso, inapetência, náusea, má digestão, escore corporal baixo e/ou caquexia, presença de corpos estranhos, pólipos, massas.

Relacionadas ao trato respiratório (Rinoscopia, Nasofaringoscopia, Traqueo-broncoscopia) podemos citar secreção nasal, espirros, tosse, dispneia, obstrução nasal, pneumonia, presença de corpo estranho e tumores.

Relacionado ao trato genito-urinário podemos citar vaginite, secreção vaginal, incontinência urinária, disúria, cistites, hematúria, presença de cálculos.

Relacionado as orelhas, a videotoscopia auxilia nos casos de otite crônica, permitindo a lavagem do conduto de forma mais precisa e adequada, coleta de material para cultura e antibiograma ou histopatológico, retirada de pólipos e meringotomia. Em todas as situações a Endoscopia auxilia no diagnóstico, direcionando o melhor tratamento e prognóstico da doença.

V&S: Os tutores têm medo de realizar a endoscopia em seus pets?

MG: Sim e não! Quando o problema é crônico e já foram feitos inúmeros tratamentos os tutores aceitam fazer o exame como última tentativa.

Como a endoscopia na medicina humana é um exame de rotina, percebo que os próprios tutores sugerem a endoscopia com mais frequência. Observo também que, quando o responsável sente segurança no médico-veterinário que indica o exame, a endoscopia é muito bem aceita.