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Nutrição – Informe PremieRpet®

O avanço das pesquisas sobre a obesidade de cães e gatos

Por Thiago Vendramini e Flavio Lopes da Silva

Infelizmente, ainda são comuns as ocorrências de negligência no tratamento de obesidade em cães e gatos. Mas aceitar como normal a gordura e a obesidade dos animais de companhia não é uma boa ideia. O tecido adiposo é considerado um órgão dinâmico e o aumento dos depósitos corporais de gordura estão relacionados com profundas alterações de algumas funções fisiológicas. Além disso, pesquisas de referência na área de medicina veterinária apontam novas abordagens sobre o impacto da doença no organismo.

Sabendo da importância do tratamento da doença para o bem-estar dos animais, a indústria petfood e centros de pesquisas nacionais trabalham arduamente para alcançar resultados que tragam melhorias na saúde dos pets.

Apesar de já estar claro na literatura que a obesidade predispõe a alterações ortopédicas, cardiovasculares, respiratórias e até metabólicas (como resistência insulínica e hiperlipidemias)1-9, uma gama muito maior de doenças também pode ser desencadeada ou agravada pela obesidade.

Um estudo recente publicado10 pelo Centro de Pesquisa em Nutrologia de Cães e Gatos da Universidade de São Paulo (Cepen Pet) mostra que os adipócitos, integrantes de um tecido endócrino ativo, por meio de uma desregulação da secreção de determinadas citocinas e inflamação crônica de baixo grau, atuam sobre o cérebro, tecidos periféricos e células do sistema imunológico. Essa atuação induz uma função imunitária deficiente, e como o sistema imune é o conjunto de células e tecidos responsáveis pela defesa do corpo, sua disfunção pode estar acompanhada por diversos riscos que contribuem para as mais variadas doenças10. É interessante destacar que o mesmo estudo avaliou o programa de emagrecimento dos mesmos cães obesos – feito com base em alimentos coadjuvantes para perda de peso elaborados e comercializados no Brasil –, e as alterações verificadas retornaram à normalidade após a perda de peso10.

Nas últimas décadas, a incidência da obesidade em animais de companhia aumentou significativamente e tornou-se uma séria preocupação na medicina veterinária. Hoje, existe uma grande quantidade de estudos que avaliam as particularidades da doença, como, por exemplo, sua frequência, a relação com a incidência e gravidade de outras doenças, alterações fisiológicas, metabólicas e hormonais, e estratégias de manutenção e perda de peso.

Em fevereiro de 2001, a publicação do rascunho do genoma de pessoas11,12 pelo Projeto Genoma Humano foi, em muitos aspectos, um marco importante, não apenas para a medicina, mas também para outras ciências. O próprio genoma canino foi estudado e publicado13 pela primeira vez em 2005, baseado no DNA de uma fêmea adulta da raça Boxer. Esses avanços foram muito significativos, pois, através da “genômica”, ou seja, da avaliação do material genético transmitido, o conhecimento sobre a doença se ampliou, como na descoberta do fator genético predisponente à obesidade na raça Labrador Retriever14.
Estudos recentes que abordam a obesidade verificaram uma complexa rede de fatores que favorecem o ganho de peso e o desenvolvimento de resistência insulínica, os quais incluem dieta, genes, ambiente e, mais recentemente, a microbiota intestinal. Além disso, as altas taxas de obesidade observadas tornam improvável que haja uma única causa para essa afecção.

Similar aos humanos, a microbiota intestinal dos animais de estimação é considerada um fator influenciador da homeostase. O trato gastrintestinal possui papel fundamental na digestão e no sistema imune, dessa forma, a microbiota e seus metabólitos podem influenciar na saúde dos animais de estimação e até de seus tutores ou pessoas com as quais têm contato. Estudos têm demonstrado a importância de conhecer a microbiota intestinal na saúde de cães e gatos, confirmando, inclusive, que a composição da microbiota fecal de cães obesos é diferente de cães em escore ideal15.

Além disso, o programa de perda de peso para cães obesos com base em uma dieta de baixa energia e alta fibra alimentar em quantidade restrita foi capaz de modificar com sucesso a microbiota fecal. Ao final do estudo, os cães emagrecidos apresentaram composição microbiana com maior biodiversidade, maior presença dos gêneros Actinobacteria, Firmicutes e Dorea e menor abundância de Faecalibacterium15.

Mas a ciência não para por aí. Essa recente evolução também tem oferecido avanços nas ciências “ômicas”, que incluem avaliações das mudanças na transcrição do RNA (transcriptômica), expressão proteica (proteômica), lipídica (lipidômica) e perfis de metabólitos (metabolômica). A metabolômica, especificamente, visa identificar e quantificar o conjunto de metabólitos (o metaboloma) produzidos e/ou modificados por um organismo em determinada situação, como no caso da obesidade.

Em 2021, o avanço das pesquisas sobre a obesidade de cães e gatos chegou até a metabolômica por meio de um estudo brasileiro com destaque internacional.16 Através da avaliação metabólica, foram analisados cães obesos e em escore de condição corporal ideal. A identificação de alterações moleculares nos cães com excesso de peso foram pronunciadas e envolveram metabólitos relacionados desde o próprio metabolismo da gordura até o risco de desenvolver urolitíases16.
No estudo, a perda de peso adequada resultou em perfis metabólicos semelhantes aos observados em animais saudáveis. Ou seja, apesar do desarranjo metabólico da condição obesa, o emagrecimento também contribuiu para sua normalidade e retorno a condição saudável16.

Esse avanço de pesquisas no Brasil é de suma importância não apenas pelo aspecto clínico, mas também no âmbito tecnológico, em que empresas nacionais conseguem ampliar e aperfeiçoar o desenvolvimento de produtos coadjuvantes ao tratamento dessa enfermidade. Assim, fica esclarecido que aceitar a gordura e a obesidade dos animais de companhia e negligenciar o emagrecimento não são uma boa ideia, com certeza.

Thiago Vendramini
Médico-veterinário, MSc., doutor, pesquisador e professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP)

Flavio Lopes da Silva
Médico-veterinário, MSc. do Departamento de Capacitação Técnico-Científica da PremieRpet®