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NUTRIÇÃO CLÍNICA

Manejo alimentar de cães idosos

Por Flavio Lopes da Silva

A proporção de animais idosos dentro da população canina está aumentando cada vez mais, como se pode observar nos consultórios dos médicos-veterinários1. Para assistir os cães idosos da forma mais adequada, deve-se conhecer suas necessidades clínicas, comportamentais e nutricionais.

As principais mudanças observadas nos animais nesta fase da vida estão relacionadas, principalmente, à função cognitiva, comportamento, pele, trato digestivo, sistema cardiovascular, sistema respiratório, degeneração articular, doenças endócrinas, urinárias e também do esqueleto2,3.
Muitas das doenças citadas são relevantes para a nutrição de cães senis devido aos seus efeitos no organismo estarem relacionados à quantidade necessária de nutrientes e energia. Por exemplo, uma doença articular degenerativa pode contribuir negativamente para as atividades dos cães, dessa forma, acarreta na redução de necessidade energética diária. Por isso, quando o animal tem uma disfunção, o clínico precisa modificar a alimentação do paciente de acordo com a condição diagnosticada4.
Mudanças associadas à idade podem se apresentar de forma fisiológica ou patológica nos cães. Fisiologicamente podemos associar a mudança de composição corporal e taxas metabólicas, assim como funções sensoriais. Patologicamente associamos doenças progressivas que podem surgir. Contudo, todas essas mudanças podem ser amenizadas com a intervenção nutricional.

Ainda não existe um direcionamento de senso comum para as reais necessidades nutricionais de cães idosos hígidos. Na teoria, as necessidades desses animais são as mesmas de um animal adulto também hígido.

Mesmo que as necessidades nutricionais sejam iguais, existem efeitos fisiológicos do envelhecimento potencialmente importantes no processo digestivo. No entanto, a maioria dos estudos não relatam diferenças na absorção de nutrientes ao comparar adultos jovens com cães geriátricos4. Dessa forma, orientamos a melhor nutrição para que o envelhecimento se apresente de forma gradual e saudável para esses pacientes.

Ao falar de nutrição, pensamos, na prática, sobre os níveis de garantia de um rótulo. Para entendermos como seria o de um cão idoso, podemos listar:

Energia: um estudo bem conhecido entre os nutrólogos é o de labradores que foram submetidos à restrição calórica com ingestão de quantidade de alimento que mantinha pontuação de condição corporal ideal do indivíduo ao longo da vida inteira, o que resultou em aumento significativo da longevidade5. Apesar do aumento das taxas de obesidade e de menor necessidade de energia reconhecida, no geral, há maior prevalência de cães geriátricos classificados como abaixo do peso em comparação a outras faixas de idade6. Além disso, em algumas populações, o escore de condição corporal pode estar negativamente relacionado com a idade7. Em alguns casos, pode estar relacionado a uma doença subjacente não diagnosticada ou não controlada relacionada à idade. Uma abordagem individualizada é indicada em relação à avaliação nutricional, porque não se pode presumir que todos os cães com mais idade precisam de redução ou aumento calórico.
Proteína: a necessidade desse nutriente para manter o equilíbrio do nitrogênio corpóreo aumenta com a idade8. Isso está relacionado ao aumento no turnover de proteína, o que resulta em aumento de nitrogênio excretado8,9. Esse aumento da necessidade de proteína não se traduz como efeito da diminuição da digestibilidade, pois, como falado anteriormente, isso não acontece no cão geriatra. A menos que haja indicação médica, cães idosos sadios não se beneficiam da restrição de proteína na dieta10,11.

Fósforo: embora a restrição de fósforo tenha mostrado retardar a progressão da doença renal crônica em cães12, não há evidências de que isso seja eficaz na prevenção do desenvolvimento dessa mesma doença. Hoje, a restrição não é recomendada, a menos que a doença renal crônica seja documentada, o que ressalta a importância da triagem e avaliação regular de cães com fatores de risco para essa doença, bem como outras4.
Sódio: cães adultos e idosos saudáveis ​​com acesso livre à água são capazes de tolerar altas concentrações de ingestão de sódio13. Alguns estudos não demonstram relação entre aumento da pressão arterial e ingestão de sódio em cães com doença renal crônica induzida experimentalmente14.

Muitos outros nutrientes podem ser relacionados à melhoria da disfunção cognitiva, danos oxidativos referentes à idade, melhoria do sistema imunológico e manejo da doença articular degenerativa. Dessa forma, ácidos graxos poli-insaturados, antioxidantes, condroitina e glicosamina são importantes para os alimentos direcionados a esses pacientes.

O fundamental é observar as mudanças específicas de cada indivíduo, ao invés de adotar a abordagem genérica em um cão sênior. Isso permitirá adaptar o plano de tratamento de um paciente às suas reais necessidades.

Flavio Lopes da Silva
Médico-veterinário, MSc. do Departamento de Capacitação Técnico-Científica da PremieRpet®
fsilva@premierpet.com.br
www.premierpet.com.br

Referências Bibliográficas

  1. Butterwick, R.F., Impact of nutrition on ageing the process. Bridging the gap: the animal perspective. Br J Nutr, 2015. 113 Suppl: p. S23-5
  2. Laflamme, D.P., Nutritional care for aging cats and dogs. Vet Clin North Am Small Anim Pract, 2012. 42(4): p. 769-91, vii.
  3. Bellows, J., et al., Common physical and functional changes associated with aging in dogs. J Am Vet Med Assoc, 2015. 246(1): p. 67-75.
  4. Larssen, A.J. & Farcas, A. Nutrition of Aging Dogs. Vet Clin North Am Small Anim Pract, 2014.
  5. Kealy RD, Lawler DF, Ballam JM, et al. Effects of diet restriction on life span and age-related changes in dogs. J Am Vet Med Assoc 2002;220:1315–20.
  6. Armstrong PJ, Lund EM. Changes in body composition and energy balance with aging. Vet Clin Nutr 1996;3:83–7.
  7. Donoghue S, Khoo L, Glickman LT, et al. Body condition and diet of relatively healthy older dogs. J Nutr 1991;121:S58–9.
  8. Wannemacher RW Jr, McCoy JR. Determination of optimal dietary protein requirements of young and old dogs. J Nutr 1966;88:66–74.
  9. Laflamme DP. Nutrition for aging cats and dogs and the importance of body condition. Vet Clin North Am Small Anim Pract 2005;35:713–42.
  10. Finco DR, Brown SA, Crowell WA, et al. Effects of aging and dietary protein intake on uninephrectomized geriatric dogs. Am J Vet Res 1994;55:1282–90.
  11. Bovee KC. Mythology of protein restriction for dogs with reduced renal function. Comp Cont Educ Pract Vet 1999;21:15–20.
  12. Brown SA, Crowell WA, Barsanti JA, et al. Beneficial effects of dietary mineral restriction in dogs with marked reduction of functional renal mass. J Am Soc Nephrol 1991;1:1169–79.
  13. In: National Research Council, editor. Nutrient requirements of dogs and cats. Washington, DC: National Academies Press; 2006. p. 159–61.
  14. Greco DS, Lees GE, Dzendzel G, et al. Effects of dietary sodium intake on blood pressure measurements in partially nephrectomized dogs. Am J Vet Res 1994; 55:160–5.