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CAPA

De olho na balança

Por Mariana Vilela, de Curitiba (PR)

Entrevista com a veterinária especializada em nutrição clínica, Camila Goloni que fala sobre a obesidade em cães e gatos cada vez mais comum na rotina clínica, a orientação dos tutores e a importância do acompanhamento e dos cálculos nos programas de redução de peso

A entrevista de capa desta edição é com a médica-veterinária, Camila Goloni, graduada pela Universidade Federal de Tocantins, em 2014, com dois anos de residência em nutrição e nutrição clínica na Universidade Estadual Paulista (Unesp – Jaboticabal/SP). No mestrado realizado também na Unesp, Camila trabalhou com uma metodologia em cães e gatos que é utilizada em seres humanos, para avaliar composição corporal dos animais, gasto energético e a rotatividade de água. Essa mesma metodologia foi aplicada no doutorado que está em andamento, na mesma instituição, com foco nos felinos para avaliar composição corporal e gasto energético com dois tipos de macro nutrientes o amido e a proteína para avaliar esses parâmetros nesses animais. Confira a seguir a entrevista completa em texto também em vídeo:

Revista Vet&Share: Quando um paciente é considerado obeso?

Camila Goloni: Um paciente obeso terá uma porcentagem alta de gordura corporal. De acordo com a literatura, ele é considerado obeso quando apresenta mais que 35% de gordura corporal, até 34% é considerado com sobrepeso. A escala mais utilizada hoje em dia é a da professora Dorothy Laflamme, feita em 1997, chamada de escore de condição corporal (ECC), que avalia a deposição de gordura na superfície corporal do animal.

É uma escala que vai em uma classificação de 01 a 09, sendo 04 e 05 (cães e gatos) considerado escore corporal ideal. De 06 a 07 é considerado um animal com sobrepeso, e 08 e 09 um animal com obesidade, sendo 09 obesidade mórbida.

Essa escala avalia a deposição de gordura corporal em algumas regiões no corpo do animal como na base da cauda, direcionado lateralmente na região das costelas, na região do pescoço. O animal perde a cinturinha que vemos logo após o gradil costal. E os felinos apresentam uma diferença em relação aos cães que é mais acúmulo de gordura visceral. Então aquela “pancinha” que achamos bonitinho é um fator de risco para a saúde deles por conta de deposição de gordura.

Por ser de fácil utilização, essa avaliação é muito utilizada nas clínicas. É necessário que o veterinário tenha conhecimento sobre a escala, faça apalpação e a visualização do animal para determinar qual a condição corporal desse paciente.

V&S: Quais as dificuldades dos médicos-veterinários ao avaliar um paciente obeso?

CG: O veterinário tem que ter conhecimento que o paciente obeso apresenta uma doença multissistêmica e o prejuízo que esta causa na expectativa e qualidade de vida. Esta informação deve ser repassada ao tutor para que este tenha conhecimento da problemática obesidade e se empenhe no tratamento! Conhecer e aplicar o ECC, assim como realizar a anamnese nutricional aprofundada seguindo as recomendações do WSAVA auxilia muito o médico veterinário a enfrentar esta doença tão crescente nos pets.

V&S: Quais exames são importantes realizar antes de iniciar um tratamento?

CG: A obesidade é uma doença multissistêmica que pode estar relacionada com várias outras comorbidades. É importante destacar que só se pode fazer um tratamento para obesidade se o animal não tiver nenhuma outra doença em que precise ser tratada primeiro. Há também as doenças concomitantes com a obesidade, que o tratamento precisa ser feito em conjunto.

Os exames que sugiro são os de triagem como hemograma para ver a função renal, hepática para primeiro avaliar o animal e verificar se ele tem alguma outra comorbidade que pode ou não estar associada a obesidade.

Pensando na obesidade é muito interessante fazer a glicemia do paciente e avaliar se tem alguma alteração endócrina.

Sabemos que em gatos a obesidade está muito relacionada a diabetes mellitus tipo 2 que causa resistência insulínica, justamente por conta da presença de obesidade, pois o tecido adiposo sintetiza e secreta substâncias pró-inflamatórias que leva a inflamação subcrônica. Importante também avaliar triglicérides e colesterol para ver se a mobilização dessas gorduras está sendo influenciada pela obesidade ou se o paciente tem outro tipo de doença endócrina associada como hiperadrenocorticismo, hipotireoidismo ou diabetes mellitus.

V&S: Quais os malefícios que a obesidade traz para a saúde do animal?

CG: A obesidade é um fator de risco para várias outras doenças como problemas ortopédicos, artrites, doenças cardiovasculares, doenças pulmonares, colapso de traqueia. Há estudos que mostram que a obesidade pode influenciar no desenvolvimento de alguns tumores mamários, além da intolerância ao exercício e ao calor.

A obesidade causa uma inflamação que é sub crônica que vai desencadear várias outras alterações, como por exemplo, prejudicar a barreira de proteção na pele. Além disso, a obesidade diminui a expectativa de vida dos animais em torno de dois anos e a qualidade de vida desses animais é prejudicada.

Isto é mostrado em estudo feito com cães da raça labrador que mostra os animais que mantiveram o escore corporal ideal tiveram maior expectativa de vida e diminuição de alterações ortopédicas.

É importante lembrar que um dos fatores que podem contribuir para a obesidade é a castração, pois o manejo alimentar do animal continua o mesmo se o tutor não for orientado a reduzir as calorias ingeridas. Os hormônios sexuais têm um efeito na saciedade, principalmente o estradiol. Por isso, tanto machos quanto fêmeas que são castrados tendem a ter o controle da saciedade dificultado e, assim, a propensão ao ganho de peso. É muito importante castrar, mas também controlar a alimentação e tentar reverter esses efeitos pós castração.

V&S: Como começar o tratamento da obesidade?

CG: Quando pensamos em programa de perda de peso para cão ou para gato, é preciso trabalhar em conjunto com os tutores. Temos que fazer um diário alimentar desse animal. Primeiro conversamos com o tutor para fazer uma anamnese alimentar detalhada e poder identificar onde está a falha na alimentação, isso pensando que o animal apresenta apenas obesidade.

É preciso deixar bem detalhado esse diário alimentar e saber qual tipo de alimento que o animal come, se é um alimento caseiro ou um alimento comercial, se for comercial que tipo de alimento comercial é esse, se é seco, se é úmido, se o tutor oferece petiscos comerciais. Se o paciente come dieta caseira é preciso saber quais os ingredientes utilizados.
Após saber quais os tipos de alimentos esse animal come é necessário então detalhar as quantidades. Quantidade por porções, quantidade em caloria de cada petisco, da alimentação principal.

É preciso entender também qual o estilo de vida desse animal se ele é sedentário ou se costuma fazer mais atividades físicas, se ele tem algum tipo de dificuldade para fazer exercícios físicos. É importante identificar o comportamento desse animal e do tutor, se o animal é glutão, se o tutor consegue oferecer o alimento em refeições diárias ou se o alimento fica exposto à vontade durante todo o dia.

Tudo isso deve ser bem detalhado na anamnese nutricional. Sugiro até fazer uma tabelinha com cada refeição do animal e informações com calorias e quantidade. Com todas essas informações é possível instituir um tratamento adequado para aquele paciente.

V&S: Como fazer para começar uma dieta e não causar estresse no animal e estimular o tutor a seguir corretamente o programa?

CG: Temos que conversar seriamente com o tutor para explicar que o programa de perda de peso será longo, os resultados vão demorar para aparecer e não poderá ser interrompido. É importante estipular metas para que o tutor consiga acompanhar a evolução.

Após identificar todas as possíveis dificuldades que o animal possa ter no programa de perda de peso de acordo com o diário alimentar que foi feito, é o momento de verificar o que fica mais viável para o tutor e que vá gerar resultados.

A partir do momento em que é conhecido as calorias consumidas diariamente pelo animal, o mais indicado é reduzir de 10% a 20% as calorias que ele ingere. Então vamos diminuindo aos poucos. Eu prefiro reduzir também o tempo de retorno. Ao invés de estabelecer 30 dias para o retorno, prefiro fazer a cada duas semanas. Assim é possível acompanhar de perto se aquilo que o animal está consumindo está tendo algum efeito e se o tutor está seguindo corretamente as instruções em conversa franca e confortável sobre o que está sendo oferecido de alimento para seu animal.

É importante também não ser radical e cortar drasticamente tudo o que é consumido, pois vai gerar um estresse e não trará resultados. Se o veterinário não sabe de forma alguma quais são as calorias que esse animal ingere, há um cálculo que pode ser feito para uma taxa de repouso para perda de peso para cães e para gatos que é em torno de 60 kcal calorias por quilo de peso metabólico, que é o peso corporal do animal elevado a um expoente. Esse expoente para cães é 0,75 e para gatos de 0,04. É uma forma empírica de iniciar o programa de perda de peso. Há alguns outros cálculos que podem ser realizados indicado por Guias Nutricionais para Controle do Peso do AHAA.

V&S: E para aqueles tutores que não tem muito recurso financeiro para investir em rações coadjuvantes, mas estão dispostos a fazer o tratamento?

CG: Essa é uma questão bem difícil de se trabalhar, porque as dietas comerciais coadjuvantes para obesidade têm um teor maior de proteína para evitar a perda de massa muscular e isso encarece o produto e, ao mesmo tempo esse alimento precisa ter uma digestibilidade adequada para o aproveitamento dessa proteína. Esse tipo de alimento tem também uma quantidade maior de fibra para que haja mais saciedade.

É interessante mostrar ao tutor que a partir do momento que se oferece uma dieta comercial é preciso pensar que haverá uma quantidade diária para ser fornecida e não será disponibilizada à vontade. Então, de um saco de 10 quilos do qual você ofertará ao animal 200 gramas por dia, a tendência é que esse saco de ração tenha uma durabilidade um pouco maior, isso pensando nas dietas coadjuvantes para obesidade.

Quando falamos das dietas light que apresentam, um custo financeiro um pouco menor que as coadjuvantes para obesidade, a diferença de formulação delas é que a light apresenta redução na gordura, mas não proteína tão elevada se comparada ao alimento coadjuvante para obesidade, o que é uma implicação a longo prazo. Além disso poderá haver uma deficiência nutricional, principalmente por conta dos aminoácidos e a perda da massa magra.

Em relação a dieta para manutenção, uma de adulto por exemplo, apresenta uma quantidade de gordura bem mais alta que essas destinadas a perda de peso, então se você restringe a caloria e não restringe a gordura contida nessa dieta, não terá o mesmo efeito e não terá a funcionalidade que esperamos.

No caso das dietas caseiras é sim possível fazer um programa de perda de peso, porém ela não será mais barata se comparada a um alimento comercial coadjuvante próprio para obesidade. Quando falamos em um perfil de dieta para um animal obeso, é preciso aumentar a proteína de qualquer forma. E hoje no mercado a proteína está com um valor mais elevado seja ovo, frango, carne suína ou bovina. Além disso, é preciso saber também quais os ingredientes que o animal gosta de consumir. Então não adianta eu dar ovo todo dia se ele parar de comer. A dieta caseira é mais propensa a falhas nutricionais do que a dieta comercial, pois, na maioria das vezes, quem irá preparar a dieta caseira será o tutor. A dieta caseira tem uma receita a ser seguida, com os ingredientes específicos e suas quantidades, que foi individualizado para este paciente em específico. O animal precisa também de suplementação mineral e vitamínica, só nessa suplementação é necessário conter 19 nutrientes que o animal precisa na quantidade correta. Se o tutor não for muito criterioso ao fazer essa dosagem e essa pesagem das quantidades, o animal pode ter uma deficiência nutricional.

Hoje em dia há empresas que desenvolvem marmitas para pets e os valores são parecidos com os valores de uma dieta comercial pronta ou se não maior.

É sempre importante ter o acompanhamento de um veterinário nutrólogo que possa avaliar as melhores opções para cada paciente. Um programa de perda de peso é demorado, tive pacientes que levaram de dois a três anos para chegar no escore corporal ideal.

V&S: Em quais casos é preciso suplementar?

CG: Vai depender de cada caso. Geralmente a suplementação ao longo do programa de perda de peso ocorre quando a redução das calorias se torna frequente conforme a não resposta do animal a perda de peso. Vamos supor que sejam estipuladas 1.000 calorias para determinado paciente. Daqui duas semanas ele vem para o retorno e não perdeu peso nenhum, então vamos reduzir de 10 a 20% essa quantidade. Então ele passa a consumir 800 calorias. Depois de duas semanas ele volta e ainda não conseguiu perder peso com essas calorias. Então fazemos a redução novamente. Claro que chegamos num ponto onde ele vai conseguir perder peso.

Pacientes que apresentam restrições calóricas sucessivas podem apresentar algumas deficiências nutricionais, principalmente, principalmente de cálcio, fosforo, potássio e de alguns aminoácidos. Em alguns casos é importante suplementar de acordo com a deficiência do nutriente que apresenta, exemplo: se a deficiência é de minerais e vitaminas, acrescenta-se um suplemento à dieta, se a deficiência é de aminoácidos, acrescenta-se uma fonte de proteína, como clara de ovo ou frango, vai depender do gosto do paciente também. Por isso é muito importante ter um acompanhamento regular dos animais que estão em tratamento de perda de peso. E esse acompanhamento envolve sempre muitos cálculos, sejam manuais ou por meios de softwares que te ajudam a mostrar a quantidade de calorias que você está fornecendo e compara com os níveis nutricionais adequados que aquele paciente precisa dependendo da espécie.

V&S: Na sua opinião o animal obeso é um reflexo do estilo de vida do tutor?

CG: Somente observando não podemos afirmar que tenha essa relação, mas há um estudo comparando o escore corporal das pessoas e de seus cachorros e foi constatado que teve sim uma correlação. Esse estudo mostrou que os tutores que apresentaram escore corporal acima do ideal, o seu animal também apresentou obesidade ou sobrepeso.
A obesidade é frequente na rotina clínica e há pesquisas que mostram que no hemisfério norte em torno de 50% da população de cães é obeso e em gatos em torno de 60%.

Um estudo muito interessante da Mariana Porsani que foi publicado em 2020, avaliou a prevalência de obesidade em cães na região da grande São Paulo. De acordo com esse estudo a prevalência de obesidade em cães é de 40%, sendo que as fêmeas tendem a ter mais obesidade que os machos, os animais que recebem mais petiscos também tendem a ser mais obesos e não ir ao veterinário também foi um fator relacionado a obesidade.

O mais interessante na minha opinião nesse estudo é que a maioria dos animais obesos moravam com pessoas idosas. Então pensando nesse perfil de tutor que fica em casa quase todo o dia, tendem a fornecer mais petiscos para esse animal.

V&S: Deixe sua mensagem final.
CG: Acredito que a prevenção seja sempre válida para que o animal não se torne obeso. Precisamos ter muito conhecimento sobre isso para poder passar ao tutor. É essencial que os veterinários busquem se atualizar e ofereçam materiais educativos que tratem sobre os fatores de riscos da obesidade e que mostrem que com a prevenção o animal terá mais qualidade e mais anos de vida.
É muito importante orientar o tutor a fornecer o alimento de forma controlada, pesada ou medida e não a vontade. Isso é uma questão que reflete muito. As vezes o animal não quer o alimento que está disponível e acaba pedindo por pão e outros petiscos calóricos. Essa orientação é muito importante para tentar minimizar essa crescente de obesidade em cães e gatos que vem acontecendo.

Os tutores e os veterinários que tenham interesse em fazer algum tipo de programa de perda de peso devem procurar a informação correta e profissionais para orientação que tenham uma boa formação na área.
Prevenir é sempre o melhor remédio. Vamos fazer com que os nossos animais tenham uma qualidade de vida e uma nutrição adequada desde filhote.